Quando o convidámos para jantar, estávamos à espera de uma mensagem de recusa envolta em astuciosa piada. O seu texto, curto, deixar-nos-ia sem resposta, recorreria a lugares comuns, a clichés, porque afinal ninguém deveria ser obrigado a conviver com quem não conhece. Pensávamos ao mesmo tempo que a declinação do convite seria algo originalmente invulgar. Desculpar-se-ia delicadamente, ofendendo sem se aperceber de o estar a fazer. Nada disto aconteceu. Começámos a conjeturar. Talvez pensou que junho seria o mês ideal para visitar os Açores, em particular esta ilha, com Angra do Heroísmo cidade património mundial. Talvez quisesse conhecer as festas Sanjoaninas que se aproximam a passos largos. Talvez pretendesse regressar a Lisboa com a tez mais dourada pelo sol açoriano e o corpo refrescado pelas nossas águas engalanadas pela bandeira azul. Talvez. Não sei. Ficámos expectantes. Aceitou.
Chegou sem ninguém dar por isso, nem os cães estranhamente deram sinal, como se houvesse um género de cumplicidade animal entre eles. Deu a volta à casa. Assustei-me com a sua sombra na vidraça da cozinha. Deixei cair inesperadamente na cuba da loiça o prato que tinha na mão. Não se partiu. Vi logo que era o Ricardo. Acenava com ar desengonçado e maroto e sorria com todos os dentes. Abri a porta. Tomei a liberdade– disse. Não levei a mal. Tem ali dois belos exemplares caninos. Já confraternizámos. Posso lavar as mãos? E serviu-se imediatamente do lava-loiças para o efeito. Depois de secar as mãos, esfregou-as, arregaçou as mangas e disse: Bem, então por onde começamos? Nesse momento, o meu marido entrou na cozinha. Cumprimentamo-nos todos. Ele disse: Olá, eu só o Ricardo! – afirmou-o como se nós já não o soubéssemos. Esboçámos todos sorrisos, largos. Tínhamos ali, à nossa frente, a principal referência da nova geração do humor em Portugal. Este jantar teria de certeza a diversão como prato principal. Sabiam que os outros gatos fedorentos ficaram chateados por não terem sido convidados? Hesitando por momentos, e sem saber muito bem o que iria dizer, saí-me com: Ficámos com receio de uma declinação coletiva e gerir este facto não seria fácil. Ele sorriu. Ufa, safei-me bem, pensei eu. O jantar está pronto. Vamos até à sala de jantar!– disse-lhe. Ah, já me esquecia, trouxe-vos o meu último livro, Novas Crónicas de Boca do Inferno. Deixei-o lá fora no carro. Já venho.
De súbito, ouvimos, o ladrar ensurdecedor dos nossos cães, contínuo e intensificado por um tom de raiva incaracterístico. Eram os outros gatos que saiam um a um do carro, batendo as portas atrás deles. Afinal tinham todos vindo para jantar.

imagem retirada de http://bloggfedorento.blogspot.pt/
Servi-lhes de sobremesa:
Flores de massa filo com morangos



Ingredientes
1 embalagem de massa filo com 4 folhas
morangos
500 ml de leite
2 ovos
50 g de açúcar (coloquei 80 g)
1 colher de sopa de açúcar baunilado
15 g de amido de milho
manteiga derretida para pincelar
Preparação
Cortei quadradinhos de massa filo com tamanho suficiente para caberem em forminhas de alumínio, ficando as pontinhas levantadas.
Pincelei as forminhas e cada quadradinho de massa filo com manteiga. Coloquei em cada forminha 3 folhas alternadas, tendo o cuidado de desencontrar as respetivas pontas para conferir o efeito de flor.
Levei ao forno as forminhas com a massa cerca de 5 minutos em forno previamente aquecido. É importante não deixar tostar muito.
Retirei-as do forno e deixei arrefecer.
Fiz o creme inglês (receita da Bimby – página 142 do Livro Básico)
Coloquei todos os ingredientes no copo e programei 6 Min/90º/Vel.4
Deixei arrefecer e depois coloquei o creme no frigorífico.
Na hora de servir, retirei o creme do frigorífico e coloquei duas colheres de sopa de creme bem cheias em cada flor de massa filo. Decorei com morangos cortados aos pedacinhos.
Os gatos gostaram e repetiram.
Com a mente brilhante de Ricardo Araújo e com esta receita, participo no passatempo Convidei para Jantar promovido pela ana e recebido nesta 6ª edição pelo Reino da Prússia.
Patrícia
