Em uma semana, tivemos dois casos de revenge porn que terminaram com o suicídio de duas moças adolescentes que não suportaram a (suposta) vergonha de terem exercido o direito de realizar uma fantasia e cometido o “pecado mortal” de ter confiado no parceiro.
Em uma semana, ouvimos, novamente, como se estivéramos naquele famoso episódio do Monty Phyton, uma matilha de Donas Perpétuas apontando o dedo para essas meninas como se as culpadas fossem elas.
Em uma semana, continuamos a ler e ouvir a mesma cantilena de sempre: que como os homens não mudam e a sociedade “é assim mesmo”, nós temos que ensinar as meninas a não se deixar filmar; que como “os homens (vocês sabem, esses menininhos grandes inimputáveis que não sabem o que é certo é errado, tadinhos deles) dividem mulher em pra casar e pra zoar, nós temos que ensinar nossas filhas a se comportar” (não sei bem o que é se comportar – pra mim ainda é não roubar o lanche do amiguinho, mas enfim, sou moça antiga).
Tá errado, gente. Não é assim que as coisas vão mudar.
Ninguém está dizendo que não se deve refletir com quem uma foto íntima está sendo compartilhada; não é isso. Claro que devemos ter cuidado e pensar ao tomar essa decisão. Mas dizer “não tire fotos” é o mesmo que dizer “não saia nunca mais na rua e fique preso dentro do seu condomínio”, “não ande mais na calçada e só ande de carro”, quando o mais razoável é dizer “tome cuidado ao andar na rua”, escolha o bairro onde vai morar”.
Vivemos atualmente na sociedade da exposição. Uma sociedade onde tudo é colocado nas redes sociais e onde somos estimulados a nos expor. Mais: uma sociedade onde famílias de classe média alta e rica usam aplicativos em smartphones que RASTREIAM seus filhos e parentes, fazendo com que tudo e todos saibam o que está sendo feito em tempo real (já viram o Family 360? é praticamente uma pulseira de regime semiaberto, usada sob o rótulo da segurança – sempre ela). Uma sociedade em que câmeras existem em todos os lugares de nossas vidas.
Tudo, rigorosamente tudo é filmado e controlado. Tudo é exposto e estimulado a ser exposto. Menos a mulher que faz sexo e tem desejo.
A mulher que tem desejos e fantasias e as realiza, essa é uma Messalina despudorada. Atreve-se a ter vontades, ter tesão, tentar o homem e ó, horror, o horror, chega ao cúmulo de desprezar e não querer mais o homem que ela “tentou”. Um demônio que deve ser punido e apedrejado em praça pública, como em priscas eras.
Não, a mulher tem que lutar contra a exposição, os desejos e as fantasias. A mulher tem que ser precavida, se guardar, ser ciosa do seu “tesouro” (em que século estamos estamos mesmo?), que não deve ser visto a despeito de todas as câmeras existentes no mundo. Ela, ELA deve ser responsável, já que os homens, esses irresponsáveis, não entendem que todas as mulheres são iguais e “eles” decidiram que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. Já que eles não entendem, NÓS temos que fazer tudo, né?
Sério mesmo que tem quem consiga repetir esse discurso e achar que ele faz sentido? Que à mulher cabe MAIS ESTA incumbência? Sério que é neste mundo que queremos que nossos filhos vivam? Porque eu quero que o meu filho viva num mundo onde as mulheres tenham desejos, fantasias e possam confiar no companheiro que escolheram para aquele momento.
Enquanto pensarmos com essa mentalidade medieval, tratando os homens como seres inimputáveis, nada vai mudar. Enquanto pensarmos que os homens são bebês incapazes de entender que TODAS as mulheres merecem respeito e que sim, é inadmissível dizer “tem mulher pra zoar e mulher pra casar”, meninas vão se matar de vergonha.
Não, não adianta falar “é assim”. Eu sei que é assim. Tanto é assim que meninas vêm morrendo, como antes eram expulsas de casa por não serem mais virgens ou por terem engravidado. E as coisas só vão “deixar de ser assim” quando a postura de pessoas decididas mudar.
Cabe a nós, adultos, mudar essa postura. Cabe a nós, pessoas cientes de nosso lugar na sociedade, questionar cada uma dessas vozes. Cabe a nós, a cada “vagabunda” que é dita em uma situação de porn revenge, defender a vítima e atacar quem violou sua confiança. Essas vozes devem ser questionadas e caladas. Só assim isso vai mudar. Se você é da turma que fala “ah, mas ela também…”, pense duas vezes. Você pode estar endossando a conduta desses caras. Você no fundo, também deve achar que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. E sabe? Eu não queria dividir uma mesa de bar com você.
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P.S. Conversem com seus filhos. O termo que eles usam para esse tipo de coisa hoje é “arrastar” (de drag, da internet). Arrastar uma menina é cada vez mais comum. Ele acha que uma menina que é arrastada é uma vadia? Por quê? Por que ele pensa isso da menina e não desanca o pau no cara que arrastou ela? Você recebe o amigo do seu filho que tem o hábito de “arrastar” meninas? Acha que ele é um cara bacana? Isso é discutido na sua casa? É assim que hábitos e costumes são modificados. Arrastar meninas deve ser um hábito socialmente rejeitado e não socialmente aceito. E mães podem muito, vocês sabem. Sim, estou pregando uma caça às bruxas. O que eles fazem é crime. E eu não admito isso.























