Segundo dia de folga. Acordei tarde e pensando no filme Garota Exemplar. Calor demais para caminhadas. Sofá, filme e limonada. Debate para ficar ainda mais temerosa quanto ao futuro do país. Permanecendo longe da quinta série que se transformou o facebook. Saudade devidamente assassinada pelo Skype. Acompanhando o crescimento dos sobrinhos por vídeos caseiros. Avançando na leitura de 1984. Um segredo ao pé do ouvido. Consegui tomar banho hoje, amanhã não sei…
Sou toda ouvidos para…

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da américa católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os toms, os miltons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo tins e bens e tais
Podres Poderes – Caetano Veloso
Nem colírio… Nem óculos escuros…
Por alguma questão ocidental, fomos levados a achar que a solidão é um inimigo. Estamos, a todo custo, tentando não estar só. Assim, perdemos uma grande oportunidade: o diálogo interno, reflexão, a investigação de nós mesmos. Ricardo Darín
Li… Gostei… Recomendo!
“A vida era bem mais mansa, Com um pouco de insensatez. Eu me lembro com detalhes De tudo que a gente fez, Por isso tenho saudade E hoje sinto vontade De ser criança outra vez…” Ismael Gaião
Então assim…
“O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém.” (William Shakespeare)
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão – flores amarelas e medrosas.” – Carlos D. de Andrade
“Somos um país extremamente violento, que tenta passar uma imagem bacana. Nascemos sob a égide do genocídio. Foram os índios, a escravidão. Tentamos construir a ideia de que somos generosos, pacíficos. Mas tivemos uma ditadura pesada há pouca tempo e insistimos que não, que foi tudo tranquilo” Luis Ruffato
Crise de identidade brasileira
Para o escritor Luiz Ruffato, falta coletividade para o Brasil deixar de ser coadjuvante
Filipe Manoukian
Editor do Viver &
“O que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?”
A pergunta é do escritor Luiz Ruffato, 53 anos. Foi em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, em outubro do ano passado, que ele a fez pela primeira vez.
Na ocasião, Ruffato recuperou temas presentes em sua obra há anos. Falou do passado escravagista, de violência, da população carcerária e de homofobia. Criticou, principalmente, as desigualdades sociais brasileiras.
Ontem, em bate-papo com O VALE, ele, um dos convidados do Festival da Mantiqueira – Diálogos com a Literatura deste ano, que ocorre de 4 a 6 de abril em São Francisco Xavier, com ‘esquenta’ em São Paulo no dia 1º do mesmo mês, dissecou o questionamento.
“Coloco isso em dois aspectos: é periferia, primeiro, porque você escreve numa língua que não é do mainstream. Segundo: é periferia porque vivemos em um país que não tem nenhuma importância do ponto de vista desse mesmo mainstream”, afirmou.
A análise, porém, conforme continua Ruffato, é mais antropológica. “Embora estejamos na América Latina, não somos latinos. Muitos africanos, até o século 19, foram trazidos para cá, mas também não somos africanos. Não somos europeus e sequer somos indígenas”, explica.
Comportamento. Da falta de identidade, despontam outras características. Rufatto continua: “Somos um país extremamente violento, que tenta passar uma imagem bacana. Nascemos sob a égide do genocídio. Foram os índios, a escravidão. Tentamos construir a ideia de que somos generosos, pacíficos. Mas tivemos uma ditadura pesada há pouca tempo e insistimos que não, que foi tudo tranquilo”.
Da negação, então, “vem o nosso caráter de não querer discutir essa sociedade”, define Ruffato. E, a partir daí, um cenário que faz com que o escritor, a cada dia, fique menos otimista. “Não é incompetência, nós simplesmente não queremos resolver.”
Por vezes, para Ruffato, parece até que há uma “intencionalidade por detrás de tudo”. “A elite não quer mudar, está no topo. Os políticos estão satisfeitos com a situação. A classe média também não quer perder a classe operária, barata.”
Utopia? A solução? “Educação”. E, como um braço, a literatura. “Não é investir em educação”, detalha Ruffato ao ser questionado. “Investir em educação o PT investe. É buscar a qualidade. É a capacitação dos professores, com estrutura escolar. É o pai entender que a escola não é um depósito de crianças, é o pai participar.”
Uma mudança cultural, então? “Sim. E não se trata de uma utopia. Outras nações já fizeram isso. Todos os países que se permitiram esse exercício, deram a volta por cima.”
Com Kleber Mendonça Filho, Ruffato vai expor essa sua visão — “ou outras, nessas ocasiões os rumos tomados são imprevisíveis” — na abertura do Festival da Mantiqueira, na capital do Estado, no dia 1º de abril, na mesa “Na Periferia do Mundo”, às 21h (veja programação nesta página).
Negativista, mas nem tanto. Em seu discurso em Frankfurt, Ruffato encerrou com um sorriso, embora leve.
“Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora”, finalizou o escritor.
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Via: O Vale

